sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

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Problema nos conversores de energia adia lançamento de satélite sino-brasileiro


O lançamento do satélite sino-brasileiro CBERS-3, previsto para ocorrer entre novembro e dezembro de 2012, foi remarcado para maio ou junho deste ano, por causa de problemas técnicos na parte brasileira do projeto. “Este é o nosso novo cronograma”, disse ontem ao Estado o diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Leonel Perondi, respondendo a uma série de dúvidas e especulações sobre o atraso no lançamento.

O satélite, desenvolvido em parceria pelo Brasil e a China, é peça fundamental do Programa Espacial Brasileiro. O custo do projeto é da ordem de US$ 125 milhões para cada país.

O problema está em uma série de pequenos conversores de energia comprados pelo Brasil em 2007 de uma empresa norte-americana chamada Modular Devices Incorporated (MDI), por cerca de US$ 2,5 milhões. Vários desses conversores apresentaram falhas nos testes finais que antecedem o lançamento na China, apesar de terem passado por todos os testes anteriores de qualidade realizados pelo Inpe e pelas empresas nacionais contratadas para o projeto no Brasil.

O fato foi divulgado em novembro pelo Jornal do SindCT, do Sindicato Nacional dos Servidores Públicos Federais na Área de Ciência e Tecnologia do Setor Aeroespacial, mas o Inpe não havia se pronunciado oficialmente sobre o caso até agora.

Segundo Perondi, uma avaliação técnica iniciada pelo Inpe em junho de 2012 concluiu que havia defeitos intrínsecos nos conversores da MDI – que já vinham apresentando problemas há algum tempo. Em agosto, uma equipe do instituto foi até a sede da empresa, nos EUA, para discutir a situação, levando cerca de 20 conversores (de um lote de 300) que tinham apresentado falhas. Em setembro, segundo Perondi, a empresa enviou um comunicado ao Inpe reconhecendo que havia defeitos de fabricação em 12 peças analisadas.

Concluiu-se, porém, que nem todas as peças estava comprometidas. Segundo Perondi, os conversores com problemas foram substituídos por outros do mesmo lote e submetidos a uma nova bateria de testes. “Retestamos tudo e, a princípio, não há mais nenhuma anomalia no satélite”, afirma Perondi. Apesar disso, optou-se por trazer alguns componentes de volta ao Brasil para mais verificações.

A decisão de reagendar o lançamento foi tomada em 20 de novembro. “Temos de ser extremamente rigorosos nesse processo; nada pode ir ao espaço com dúvidas”, diz Perondi. “Pode demorar mais, pode custar mais, mas não pode haver falhas.”

A data de lançamento ainda poderá sofrer alterações. “O cronograma é móvel, vai sendo revisto à medida que fazemos os testes”, afirma Perondi.

Outra opção seria reprojetar o sistema elétrico do satélite para operar com outro modelo de conversor, mas isso atrasaria o lançamento do satélite em no mínimo dois anos, segundo fontes ouvidas pelo Estado.

Embutidos. Os conversores, de um tipo chamado DC/DC, têm a função de adequar a voltagem da corrente elétrica do satélite às necessidades de cada um de seus subsistemas internos. Cada conversor pesa cerca de 500 gramas e há vários deles (44 no total) embutidos nos componentes brasileiros. “Não é algo trivial de ser substituído”, disse Perondi.

Os componentes chineses, por sua vez, utilizam conversores externos, maiores e mais pesados, que operam com uma voltagem fixa predeterminada – fabricados por uma empresa brasileira.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

A França está sozinha?


A França está sozinha?
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Em menos de dois anos, a França realizou três intervenções militares externas decisivas. Em março de 2011, seus ataques aéreos na Líbia (juntamente com os do Reino Unido) cercearam as tropas do coronel Muamar Gadafi quando se preparavam para retomar a cidade de Benghazi. Um mês depois, forças francesas na Costa do Marfim prenderam o presidente Laurent Gbagbo, que se recusara a reconhecer a vitória eleitoral de seu adversário, submetendo o país ao risco de uma guerra civil. Agora a França interveio no Mali.
Esta mais recente intervenção foi inicialmente planejada como parte de uma missão europeia de apoio às forças africanas, mas a França decidiu agir de forma unilateral para tolher o avanço de islamitas que ameaçavam invadir Mopti, a última barreira antes de chegar à capital, Bamako. Além disso, a França quer proteger seus cidadãos instalados na região, manter a estabilidade no Sahel [o semiárido africano ao sul do Sahara], que abriga governos muito fracos, e impedir a transformação do Mali numa base do terrorismo islâmico voltada para a Europa.

Muita coisa está em jogo – ainda mais porque a intervenção da França tende a ser ampla. Embora os islamitas tenham sido temporariamente derrotados, estão bem armados e recebem suprimentos da Líbia via Argélia, que reprimiu os islamitas em seu país mas parece fazer vista grossa a seu trânsito por seu território. Além disso, o potencial do exército malinês e o de outros países da África Ocidental que deverão se integrar à operação é pequeno demais para mudar as coisas. Os Estados Unidos tentaram dar treinamento ao exército malinês, mas fracassaram fragorosamente.

Os europeus relutam em desenvolver um aparato militar significativo porque o seu projeto foi criado em contraposição à ideia de força. Mas essa postura se tornou indefensável. A região se defronta com ameaças reais, que Paris sozinha não consegue deter

Com a segurança da Europa como um todo em jogo, por que a França é o único país envolvido?

Uma das explicações é encarar a intervenção como uma tentativa neocolonialista de proteger uma seara francesa. Esse é um erro crasso. A França não tem interesse em proteger um regime malinês que sabe ser corrupto e incompetente; na verdade, a França se recusou recentemente a apoiar uma solicitação do regime do presidente François Bozizé na vizinha República Centro-Africana de ajuda no enfrentamento dos rebeldes.

As motivações da França são mais amplas. Em especial, a França sempre considerou a África Subsaariana e o mundo árabe esferas naturais de influência política e estratégica necessárias para manter sua posição de uma das potências mundiais.

A segunda explicação é mais convincente: a França, além da Grã-Bretanha, é a única verdadeira potência militar europeia. Ela acha que um aparato militar operacional é condição do poder – opinião não compartilhada pela esmagadora maioria dos governos europeus, que continua a exibir uma aversão coletiva à guerra.

A Europa, sem dúvida, dispõe de meios para uma ação conjunta. Em 2003, após o início da Guerra do Iraque, a Europa abraçou uma estratégia preparada por Javier Solana, na época o alto representante da União Europeia (UE) de Política Externa e de Segurança Conjuntas. Mas, embora um grande número de europeus tenha ingenuamente acreditado que a proposta seria o prelúdio de uma estratégia europeia conjunta, ela foi preliminarmente formulada em termos tão vagos que permitiam qualquer – ou nenhum – resultado.

O Tratado de Lisboa da UE faz menção a “cooperação estruturada permanente” em política de segurança e de defesa, e existe todo um aparato de comissões políticas e militares para prever, preparar e implementar operações militares em nível europeu. Mas esse mecanismo é desprovido da vontade política conjunta necessária para ativá-lo; quanto menos for utilizado, menos utilizável se tornará.

Durante a crise da Líbia, a sucessora de Solana, Catherine Ashton, procurou restringir o papel da UE ao de uma super-ONG focada em ajuda humanitária e desenvolvimento econômico. Recentemente, na votação sobre a representação palestina na ONU, a UE recomendou a abstenção a seus membros – estranha maneira de afirmar o compromisso da Europa com a liderança mundial.

Para a Grã-Bretanha a defesa em âmbito europeu é um projeto fadado ao fracasso. A Grã-Bretanha se desviou desse princípio uma única vez, quando concordou em participar da operação antipirataria Atalante ao largo do Chifre da África – provavelmente por ter sido posta no comando. Em decorrência disso, os que querem um aparato de defesa europeu conjunto não têm meios de criá-lo, enquanto os que têm os meios de criá-lo não o querem (com a possível exceção da França).

A cooperação bilateral da Grã-Bretanha com a França – posta em destaque durante a crise da Líbia – é, às vezes, muito sólida. Mas, apesar do tratado de cooperação nas áreas de defesa e segurança entre os dois países, firmado em 2010, os britânicos decidiram, por motivos orçamentários, adquirir aviões incompatíveis com os porta-aviões franceses.

Mesmo Espanha e Itália, os dois países mais afetados pelos últimos acontecimentos no Mediterrâneo e no Sahel, reduziram significativamente seus gastos militares. Ao contrário da Alemanha, ambos os países participaram da intervenção na Líbia, mas com regras altamente restritivas de envolvimento para suas forças. A força naval italiana, por exemplo, foi orientada a evitar as águas ao largo da costa de Trípoli, e os aviões-tanque espanhóis foram proibidos de reabastecer caças.

A Europa como um todo dedica atualmente apenas 1,6% de seu Produto Interno Bruto (PIB) à defesa, comparativamente aos 4,8% destinados pelos EUA a esse fim. Ela se constitui na única região do mundo em que os gastos militares estão diminuindo. Suas forças de prontidão são extremamente reduzidas, respondendo por 4% de todo o efetivo militar mundial, contra os 14% dos EUA. A cooperação industrial, que poderia constituir um fator positivo do ponto de vista econômico e militar, também está enfraquecendo, como ficou demonstrado pela bem-sucedida oposição da Alemanha à pretendida fusão Eads-BAE, oficialmente cancelada em outubro.

A Alemanha tinha dado a impressão de ter abraçado uma política mais sólida desde sua participação nas operações militares no Afeganistão. Atualmente, no entanto, ela recua diante de qualquer perspectiva de intervenção militar, apesar de ser o terceiro maior exportador mundial de armas.

A Europa reluta em desenvolver um aparato militar significativo porque o projeto europeu foi criado em contraposição à ideia de força. Mas essa postura se tornou indefensável. A Europa se defronta com ameaças reais, que a França sozinha não consegue deter. Além disso, o sistema internacional se aglutina cada vez mais em torno de potências nacionais que consideram a força militar um pré-requisito essencial da influência. A Europa não tem opção entre poder brando e poder duro. Precisa associar os dois se quiser sobreviver. (Tradução de Rachel Warszawski)

Zaki Laïdi é professor do Institute d”études politiques de Paris (Sciences Po). Copyright: Project Syndicate, 2013.

FONTE: Valor Econômico via Resenha do Exército

Americanos voarão para o espaço com motores russos


Americanos voarão para o espaço    com motores russos

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A empresa Kuznetsov,localizada na cidade de Samara, assinou um acordo preliminar para a exportação de 50 motores, desenvolvidos para o programa lunar soviético, para os Estados Unidos.

O referido acordo foi concluído com a empresa estadunidense Orbital Sciences, produtora de satélites e veículos de lançamento, e a empresa Aerojet, a maior fabricante de motores para foguetes nos EUA.


Dois motores modificados são utilizados no primeiro estágio do foguete americano Antares, projetado para transportar carga para a Estação Espacial Internacional. O seu primeiro lançamento está previsto para este ano.


Fonte: A Voz da Russia

Entenda os interesses da França no Mali


Entenda os interesses da França no Mali

A ação militar francesa no Mali parece haver rendido pontos ao presidente da França, Francois Hollande, nas pesquisas de opinião, mas muitos analistas se surpreenderam com a intervenção do país europeu na sua ex-colônia africana.

A fully armed Rafale ready for departure
A operação militar francesa, que teve início na sexta-feira passada, tem, segundo Hollande, o objetivo único de impedir que grupos rebeldes islâmicos que controlam o norte do Mali assumam o controle de todo o país.

Uma força regional, composta por tropas de vários países da África Ocidental, em poucos dias também estará no Mali para auxiliar nas operações contra os grupos insurgentes.

Pelos termos de um acordo firmado em outubro passado, a França deveria liderar uma missão europeia que daria treinamento com apoio logístico a uma intervenção promovida pelo bloco militar da Comunidade Econômica de Estado de África Ocidental (Cedeao). Ou seja, não estava previsto que a França participaria dos combates.

Hollande tem enfatizado que se o Mali se converter em refúgio de insurgentes islâmicos, a segurança europeia estaria em risco. Mas além da segurança europeia, o que mais estaria por trás da decisão francesa de intervir no conflito africano?

Ameaça à Europa

Os rebeldes islâmicos, alguns dos quais teriam ligações com a rede Al-Qaeda, já controlam metade do Mali, e a chance de que venham a controlar todo o território do país não é de todo remota, segundo Paul Melly, analista de temas africanos da BBC.

Especialistas concordam que o Exército no Mali não tem capacidade de conter a ofensiva rebelde. A captura recente de Konna, o ponto mais ao norte do país que ainda não havia caído nas mãos dos militantes islâmicos, funcionou como um grito de alerta.

''Representantes do governo da França não estavam exagerando quando disseram que, sem a intervenção francesa, os insurgentes islâmicos poderiam chegar à capital, Bamako, em questão de dias'', afirma Melly.

De acordo com o analista, isso teria sido desastroso não apenas para o Mali, mas para toda a África Ocidental, ''ameaçando a estabilidade e as estruturas democráticas de toda a região''.

Isso também poria em jogo todos os interesses da ex-metrópole francesa, que, historicamente, sempre teve uma presença importante na região.


E seria preocupante também para a comunidade internacional, segundo Melly. ''Permitir que um país da África ocidental outrora estável ruísse completamente diante de grupos cujo objetivo é exportar a guerra santa seria arriscar a estabilidade e a segurança de várias nações, do Senegal à Nigéria'', opina o analista.

Intervencionismo francês

A França tem um histórico de intervenções militares em suas antigas colônias em momentos de insurreições, golpes de Estado e instabilidade política.

O analista da BBC Tim Whewell frisa que a França, que até os anos 50 e 60 controlava vários países africanos, ''nunca deixou a região por completo''.

''Mesmo após a independência de suas antigas colônias africanas, a França já interviu em conflitos no Gabão, na República Centro-Africana, na Costa do Marfim e na República do Congo'.'

Então, por que mudou de ideia tão subitamente se seu plano inicial era apenas fornecer apoio logístico? A resposta do governo francês é que o próprio governo interino de Mali pediu a ajuda francesa quando os rebeldes avançaram até assumir o controle de Konna, cidade considerada crucial e situada a pouco mais de 680 km da capital malinesa, Bamako.

Impulso a Hollande

Os índices de popularidade do presidente Francois Hollande vinham despencando, e muitos acreditam que a intervenção favorece a sua imagem.

Até o momento, o líder socialista vinha se posicionando como um estadista antibelicista, com planos de retirada imediata de tropas francesas no Afeganistão.


Mas seus índices de aprovação caíram para a faixa de 20% desde que ele chegou ao poder, no ano passado. E uma pesquisa recente mostrou que 3 em cada 4 franceses duvida que ele será capaz de cumprir suas promessas.

Francois Heisbourg, diretor do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, baseado na Grã-Bretanha, afirmou que a intervenção no Mali deu a Hollande um empurrão em um momento difícil para seu governo.

"Hollande é visto, inclusive por muitos de sus seguidores, como um homem indeciso, como Obama era visto nos primeiros meses de seu mandato", afirma.

''Sua decisão de intervir no Mali, que foi rápida, contundente e aparentemente efetiva, mudou subitamente a imagem de Hollande.''

Aposta de risco

Mas os analistas advertem também que a decisão francesa representa uma aposta de risco.

''Os rebeldes estão muito bem equipados, têm grande mobilidade e conhecimento do terreno. A França tem vantagem aérea, mas os bombardeios podem ser contraproducentes e alienar uma parte da população civil do Mali'', diz à BBC BBC Nigel Inkster, ex-agente do MI6, o serviço de inteligência britânico.

Jonathan Marcus, especialista da BBC em assuntos diplomáticos, afirma que os objetivos da missão francesa são poucos claros: "O envio de tropas visa conter o avanço dos rebeldes islâmicos ou que o governo do Mali retome o controle do norte do país? Trata-se de uma área gigantesca'', comenta.

Os próprios meios de comunicação franceses já manifestaram preocupações com a intervenção e destacaram que ''é fácil entrar, mas difícil sair''.


Fonte: BBC

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Oferta de ajuda à França no conflito em Mali é arriscada para Alemanha


Oferta de ajuda à França no conflito em Mali é arriscada para Alemanha
A força aérea da França está atacando alvos há mais de quatro dias. O país está em estado de guerra, mesmo que as autoridades governamentais em Paris relutem em dizer isso. Elas preferem falar em "intervenção" a pedido do governo de Mali. Mas os fatos contam uma história diferente. O piloto de um helicóptero de ataque francês morreu e mais de cem pessoas teriam sido mortas desde sexta-feira (11). A situação em solo não é clara. Na segunda-feira (14), rebeldes islamitas conquistaram a cidade de Diabali, a cerca de 400 quilômetros ao norte da capital, Bamaco. 
O governo francês estabeleceu um limite à sua assistência militar. "A intervenção durará apenas semanas", disse o ministro das Relações Exteriores, Laurent Fabius. 
Esse é um prognóstico bastante ousado. 
Ninguém pode dar uma estimativa realista de quanto tempo durará a ação militar da França. É um empreendimento de risco para o presidente francês François Hollande. A visão da maioria dos autores de políticas em Berlim é de que ele deve receber ajuda, mas é uma caminhada pela corda bamba para a Alemanha. Em nove dias, os dois aliados celebrarão o 50º aniversário da assinatura do Tratado de Amizade Franco-Alemão, com uma grande cerimônia em Berlim da qual participarão membros dos governos e Parlamentos dos dois países.
Um caça francês Dassault Rafale é preparado para uma missão de bombardeiro a Mali
 
Mali está na agenda de Berlim há meses. Em outubro, a chanceler Angela Merkel disse que apoiaria uma missão conjunta da União Europeia para treinamento e apoio às forças de Mali. E o ministro das Relações Exteriores alemão, Guido Westerwelle, não deseja uma repetição das críticas sofridas pela Alemanha por causa da Líbia em 2011, quando ele foi acusado de ter hesitado demais e então ter deixado a Alemanha de lado, ao se abster na votação no Conselho de Segurança da ONU da zona de exclusão aérea em apoio aos rebeldes líbios. 

A fully armed Rafale ready for departure
Em uma coletiva de imprensa de rotina do governo na segunda-feira, o porta-voz de Westerwelle, Andreas Peschke, disse que estava claro que a Alemanha "não deixará a França nessa situação difícil". 
Berlim está oferecendo a perspectiva de apoio logístico, médico e humanitário. Está claro que o governo de Merkel deseja evitar o envio de tropas de combate alemãs. O porta-voz de Merkel, Steffen Seibert, descartou isso categoricamente. 
O principal partido de oposição, o Partido Social Democrata (SPD), concorda. O candidato do SPD adversário de Merkel na eleição geral de setembro, Peer Steinbrück, disse: "Não há nenhuma dúvida a respeito de uma missão de combate envolvendo tropas alemãs". 
Um envio sem fim? 
Mas mesmo se a Alemanha não enviar tropas de solo, seu envolvimento em Mali está repleto de riscos. Ao auxiliar a França, a Alemanha estaria na prática participando de um ataque contra radicais islâmicos com laços estreitos com a Al Qaeda, que já está ameaçando ataques em retaliação a Paris e a todos os países que participarem da operação, mesmo fora de Mali. Além disso, a experiência mostra que assim que uma nação oferece apoio logístico, pode rapidamente ser pedido que ela ofereça mais. No final, a Alemanha poderia ser arrastada para um conflito muito longo. 
Ninguém em Berlim quer um segundo Afeganistão. Esse é o motivo para tanto a coalizão de governo de Merkel quanto a oposição política estarem se mostrando tão cautelosas em sua reação. 



AASM missiles being loaded on a Rafale
Philipp Missfelder, o porta-voz de política externa do partido de Merkel na câmara baixa do Parlamento, o Bundestag, disse: "Eu sou a favor de sermos cautelosos e realizarmos uma ampla análise. A França conta com nosso apoio político, mas temos que ser muito cuidadosos ao pesarmos os riscos envolvidos em cada envio da Bundeswehr". 
Mas quão longe irá o apoio logístico da Alemanha? Será que aeronaves de transporte Transall alemãs também seriam usadas, por exemplo, para transporte de tropas africanas da missão da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental ao país? Os planos atuais preveem a formação de uma força de 3.300 soldados, provenientes de Burkina Fasso, Níger, Senegal, Benin, Togo e Costa do Marfim. Missfelder disse não descartar a possibilidade, mas que ela exigiria "ampla revisão". 
Na oposição, o articulador de política externa do SPD no Parlamento, Rolf Mützenich, não disse nada sobre transporte de tropas, mas fez exigências à coalizão de Merkel. 
"O governo federal precisa informar nesta semana as suas intenções, suas capacidades e os pedidos que estão sendo feitos", ele disse. "Além disso, há questões de lei internacional que precisam ser respondidas." 
Dentro do Partido Verde, entretanto, uma disputa pública estourou a respeito da missão francesa em Mali. Jürgen Trittin, o líder dos verdes no plenário do Parlamento, defendeu a ação francesa, mas a porta-voz de política externa, Kerstin Müller, a descreveu como "arriscada demais". 
Treinadores alemães voltarão em breve para Mali? 
Além de fornecer ajuda à França, Berlim também deseja esforços acelerados para o estabelecimento de um programa de treinamento para o exército malinês, que já foi repetidamente adiado. A operação de treinamento da UE já está em funcionamento há meses e um plano detalhado pede por até 200 treinadores (incluindo até 30 alemães) para deixar em condições os malineses mal treinados e fornecer a eles pelo menos um ano de apoio em seu combate contra os islamitas. 
Tudo já foi planejado, incluindo 5 milhões de euros em financiamento, mas isso ainda não saiu do papel. Em Berlim, as autoridades do Ministério das Relações Exteriores disseram que decisões serão tomadas "nas próximas semanas". E o que isso significaria em termos concretos? 
-Ao norte da capital, Bamaco, um punhado de alemães forneceu treinamento para soldados malineses até o golpe militar em Mali, em março de 2012. Eles os ensinaram a dirigir grandes caminhões, a erguer acampamentos e construir pontes provisórias. 
-Assim que uma decisão política for tomada, a Bundeswehr poderia continuar esse treinamento, e assim cumprir sua parte na missão da UE. Fontes dentro do Ministério das Relações Exteriores disseram que a Alemanha não poderia fazer muito mais que isso. 
Mas mesmo essa missão traz riscos. Se ainda não eram, depois dos franceses lançarem seus ataques, as tropas estrangeiras no país passarão a ser vistas como participantes de uma guerra contra os islamitas. 
As bases alemãs poderiam enfrentar ações de retaliação. Dúvidas ainda persistem sobre quão eficaz é o treinamento. Desde o golpe, o país é liderado por um governo interino instalado pelos militares, mas não se sabe ao certo quem de fato lidera o exército. Até a incursão francesa, a posição era de que a UE não iniciaria sua missão em Mali até que as reformas políticas no país se tornassem visíveis. 
Com a ação unilateral da França, isso agora será difícil.


Outubro Vermelho: vírus que roubava documentos secretos desde 2007


Outubro Vermelho: vírus que roubava documentos secretos desde 2007
Investigadores russos descobriram uma rede de hackers que poderia estar roubando desde 2007 documentos confidenciais de instituições governamentais de dezenas de países do mundo, incluindo o Brasil. A empresa de segurança online Kaspersky Labs afirmou à BBC que o programa malicioso distribuído pela rede foi desenvolvido para roubar arquivos codificados de instituições como embaixadas, centros de pesquisa nuclear e institutos ligados aos setores de petróleo e gás.

O programa malicioso (ou malware, na linguagem técnica) foi batizado de Red October, em referência ao submarino russo do livro A Caçada ao Outubro Vermelho, de Tom Clancy. Segundo a Kaspersky, os principais alvos eram países do Leste Europeu, ex-repúblicas soviéticas e países da Ásia Central, mas ataques também foram verificados ao redor do mundo, incluindo Estados Unidos e países da Europa Ocidental. 


Um especialista descreveu a descoberta do ataque como "muito significativa". "Esse programa parece estar tentando coletar todas as coisas usuais - documentos de Word, PDFs, todas as coisas que você poderia esperar. 


Mas algumas das extensões de arquivo que ele alveja são arquivos encriptados muito específicos", diz o especialista Alan Woodwards, da Universidade de Surrey. Segundo a Kaspersky, "o principal objetivo dos hackers era juntar documentos sensíveis das organizações atingidas, que incluíam inteligência geopolítica, credenciais para o acesso a sistemas de computadores protegidos e dados pessoais de dispositivos móveis e de equipamento de rede".

'Vítimas selecionadas'


Em entrevista à BBC, o chefe de pesquisas da Kaspersky para malware, Vitaly Kamluk, disse que as vítimas foram cuidadosamente selecionadas. "(O ataque) foi descoberto em outubro. Começamos nossas checagens e rapidamente compreendemos que essa é uma enorme campanha de ataque cibernético", comenta Kamluk.

"Há um conjunto bem limitado de alvos afetados - cuidadosamente selecionados. Eles parecem estar relacionados a algumas organizações de alto perfil", diz. Segundo ele, o Red October tem muitas semelhanças com o Flame, outro grande ataque cibernético descoberto no ano passado.


Assim como o Flame, o Red October é composto de vários módulos distintos, cada um deles com um objetivo ou uma função. "Há um módulo especial para a recuperação de arquivos apagados de cartões de memória", diz Kamluk. "Ele monitora quando um cartão de memória é plugado e tenta então recuperar arquivos apagados.


Nunca havíamos visto isso antes em um malware", observa. Escondido Outra característica única do Red October é sua habilidade de se esconder em uma máquina como se houvesse sido apagado, segundo Woodward. "Se ele é descoberto, ele se esconde. Quando todos pensam que a costa está limpa, você manda um e-mail e 'pá', ele volta a ficar ativo", afirma.


Outros módulos foram desenvolvidos para buscar arquivos codificados com um sistema conhecido como Cryptofiler - um método que era disseminado em agências de inteligência, mas que agora é menos comum.


Woodward explicou que apesar de o Cryptofiler não ser mais usado para documentos extremamente sensíveis, ele ainda é usado por organizações como a Otan para proteção da privacidade e de outras informações que podem interessar a hackers. O ataque do Red October a arquivos do Cryptofiler podem sugerir que os métodos de codificação haviam sido "quebrados".


Segundo Kamluk, a origem do malware ainda está sendo investigada, mas o código do programa incluiria termos errados em inglês supostamente influenciados pelo russo. 


Um desses indícios seria o uso da palavra 'proga', gíria comum entre os russos para programa ou aplicativo e que não é usada em nenhuma outra língua. Woodward, porém, adverte que "no velho mundo sorrateiro da espionagem, poderia ser um exercício falso de sinalização". "Não dá para tomar essas coisas pelo valor de face", afirma. Segundo a Kaspersky, um relatório de cem páginas sobre o malware deve ser publicado até o fim da semana.

Fonte: UOL/BOL

domingo, 13 de janeiro de 2013

Em "áreas de influência", Brasil reforça foco em integração e cooperação

Para estudiosos, as ações econômicas e políticas brasileiras, especialmente na África, seriam de cunho "imperialista"

A maior prova de fogo para a presidente Dilma Rousseff e o chanceler Antonio Patriota nos dois anos do atual governo foi a destituição sumária, pelo Congresso do Paraguai, do presidente Fernando Lugo, em 22 de junho deste ano. Desafio ainda maior por ter ocorrido no âmbito de influência do Brasil e pela expectativa de que o país assuma definitivamente um papel de liderança no continente.

O governo brasileiro não demorou em qualificar a manobra como golpe de Estado e liderar a suspensão do país vizinho da Unasul (União de Nações Sul-Americanas) e do Mercosul, sob a justificativa da quebra da ordem democrática. Mas não parou por aí. Como a entrada da Venezuela de Hugo Chávez no bloco econômico dependia apenas da aprovação do parlamento paraguaio – os legislativos dos outros países membros já tinham dado o aval – o Brasil aproveitou a brecha criada pela punição ao Paraguai para ratificar a adesão da nação bolivariana como membro-pleno.

Em comunicado logo após a reunião que oficializou a expansão do Mercosul, realizada em 31 de julho, o Itamaraty afirmou: “a incorporação da Venezuela altera o posicionamento estratégico do bloco, que passa a estender-se do Caribe ao extremo sul do continente. O Mercosul se afirma, também, como potência energética global tanto em recursos renováveis quanto em não renováveis”. O bloco passou a contar com 70% da população, 72% da área e 83,2% do PIB sul-americano.

Wilson Dias/Agencia Brasil (03/08/2012)






Dilma Rousseff e Hugo Chávez assinam acordos para compra e venda de aeronaves da Embraer para os venezuelanos

“Foi um fato de muita importância, que fortalecerá o Mercosul de uma forma extraordinária”, avalia o diplomata Samuel Pinheiro Guimarães, ex-secretário-geral das Relações Exteriores do Ministério das Relações Exteriores (2003-2009). Para Raúl Zibechi, editor do semanário uruguaio Brecha e autor do livro Brasil Potencia. Entre la integración regional y un nuevo imperialismo, a resposta brasileira à destituição de Lugo foi “contundente e potente”.

Em dezembro deste ano, foi a vez da Bolívia. No dia 7, no final da plenária da Cúpula de Chefes de Estado do bloco, em Brasília, o presidente boliviano, Evo Morales, assinou o protocolo de adesão, surpreendendo até os negociadores. “A permanência desse cenário global de crise torna ainda mais evidente a importância da nossa integração, que é o que nos fará mais fortes e aptos a enfrentar as turbulências do mercado internacional”, comemorou Dilma na ocasião.

O fortalecimento do Mercosul, comandado pelo Brasil, demonstrou que o foco na integração regional continua sendo prioridade do atual governo. “A Unasul e o Mercosul são os pilares mestres da liderança brasileira no continente e os arranjos de integração pelos quais o Brasil tem maiores interesses e nos quais procura atuar de forma mais decisiva”, analisa Cristina Pecequilo, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Ela faz a ressalva, no entanto, de que a Celac (Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos), criada em 2010 para fazer contraposição à OEA (Organização dos Estados Americanos), vem recebendo menos atenção dos países da região e apresentando “significativo recuo” em sua construção.

Zibechi, por outro lado, chama a atenção para a importância do Brasil como impulsionador no último período do CDS (Conselho de Defesa Sul-Americano), órgão da Unasul que pretende promover o intercâmbio militar entre as nações do continente. Um dos passos mais ambiciosos nesse sentido foi dado no final de novembro deste ano, em Lima, durante a IV Reunião do CDS. Lá foi aprovado o Plano de Ação para 2013, que inclui uma série de iniciativas conjuntas na área, como a instituição de um fórum que discuta o estabelecimento de mecanismos e normas especiais para compras e desenvolvimento de produtos e sistemas militares na região. Na declaração final da reunião, os países sul-americanos reiteraram o compromisso de ampliar a cooperação em defesa e fortalecer o continente como zona de paz.

O poder brasileiro

A ascensão do Brasil como potência regional, sobretudo nos últimos dez anos, deve-se muito à sua expansão econômica, apontam especialistas. Mas não só a isso. Cristina Pecequilo ressalta a busca do país pela afirmação de uma presença internacional não só na América Latina, como também no continente africano. Segundo ela, seria uma forma de elevar seu poder. “Para isso, o Brasil tem como foco instrumentos de soft power, com perfil cooperativo, que se somam a essa reafirmação de liderança”, diz. Soft power, ou poder brando, é o tipo de influência exercida por um Estado especialmente por meios culturais ou ideológicos.

O embaixador Tovar da Silva Nunes, porta-voz do Itamaraty, vai além. “[Seus agentes] são os atletas, os times de futebol, as empresas, a música, os filmes, e, inclusive, os brasileiros no exterior. Nossa diáspora é vista como trabalhadora e que se integra, fala as línguas locais. Isso faz parte de uma percepção do Brasil e do seu povo como uma nação que agrega, que é positiva, que tem soluções criativas”, diz. Citando os projetos de cooperação do Brasil na África e no Caribe, Nunes faz questão de frisar que há um desejo por parte do governo brasileiro de “fazer diferente do que faziam os outros países”. A gestão Dilma estaria consolidando tal postura.

José Cruz/ABr (20/09/2011)


Para o ex-alto-representante-geral do Mercosul Samuel Pinheiro Guimarães, postura brasileira frente a outros países não é imperialista 


O conceito de soft power para definir o poder exercido pelo Brasil na América Latina e na África, no entanto, é contestado por Igor Fuser, professor de Relações Internacionais na Universidade Federal do ABC. “É um desses conceitos vagos, que servem para qualquer coisa e para nada ao mesmo tempo. A figura de Lula, seu discurso contra a fome e as notícias sobre as políticas sociais no Brasil, entre outros fatores, despertaram enorme simpatia pelo nosso país, mas daí a falar em soft power vai uma distância enorme.”

"Imperialimo"

Outros estudiosos, contudo, definem a atuação brasileira especialmente na África como “imperialista”. É o caso de Ana Saggioro Garcia, doutora em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e pesquisadora do Brics Policy Center (BPC). Segundo ela, são evidentes os interesses econômicos e políticos do Brasil no continente africano, onde o país compete com outras potências por mercados e recursos naturais e pela construção de uma imagem de cooperador internacional. Na opinião da pesquisadora, a política externa de Dilma estaria aprofundando esse tipo de atuação.

“Eu enxergo o Brasil ocupando um lugar cada vez mais importante na estrutura da acumulação capitalista global. Nosso país atua dentro do capitalismo, por isso não tem como fugir do imperialismo. Imperialismo é poder econômico conjugado com poder político, e está clara a tentativa do Brasil de ser um poder regional, e, via essas relações Sul-Sul, ter mais poder no âmbito global. Almeja aumentar seu prestígio internacional, ter poder nas instâncias de concertação global. Não é uma amizade, uma dádiva, uma coisa que vai sem volta [a cooperação com os africanos]”, analisa.

De acordo com Ana, isso é sentido pelas populações locais principalmente por causa da atuação agressiva das empresas brasileiras nos países do continente. “É grosseiro mesmo, seja no âmbito mais institucional, de corrupção, seja em relações concretas de direitos humanos e sociais, como a atuação da [mineradora] Vale em Moçambique. Não avalio que o Brasil tenha chegado ao ponto de substituir as potências globais, mas essa postura imperialista é percebida pelas populações afetadas.”

Para Raúl Zibechi, o imperialismo ou o sub-imperialismo não podem ser decididos por um governo – são questões estruturais. Segundo ele, o Brasil não pode ser mais definido como sub-imperialista, pois tem capacidade própria de acumulação de capital e, pelo menos nos aspectos decisivos, não é mais um país dependente. “Isso não quer dizer que automaticamente deve-se colocá-lo como imperialista. Certamente há traços de imperialismo, mas no fundamental estamos diante de um cenário aberto, no qual jogam tanto o Brasil como os demais países da América do Sul, que é a região chave para os interesses do Brasil. Por isso falo de Brasil Potência e não de Brasil Império. Ainda há possibilidade de que as relações com seus vizinhos sejam de outro caráter que não a de dominação ou imposição”, explica.

Samuel Pinheiro Guimarães, por sua vez, qualifica como um “equívoco total” a definição do Brasil como um país imperialista nas suas relações com nações menos desenvolvidas. De acordo com o diplomata, o Brasil não força ninguém a adotar algum tipo de política – os países que o procuram, em busca de apoio, principalmente, para a realização de obras de infraestrutura para os quais não têm recursos. Em relação à atuação das empresas brasileiras no exterior, Guimarães avalia que o governo não é responsável. “O Brasil insiste que devem seguir as legislações locais. Ao financiar uma atividade em outro país, o governo assume que a empresa as está cumprindo. Além disso, cabe a cada país fazer valer suas leis”, acredita.

Fuser destaca que é preciso ter claro que o conceito de imperialismo vai muito além da simples exportação de capital por meio de investimentos empresariais. “Imperialismo é uma relação abrangente de dominação, que envolve, além do plano econômico, a dominação política e a supremacia militar, sem falar em fatores culturais e ideológicos". Esse não seria o caso do Brasil, defende.

TEXTO DE: OPERA MUNDI (especial diplomacia diferenças e semelhanças entre Lula e Dilma)

As luzes vermelhas estão acesas no quadro geopolítico de 2013

As luzes vermelhas estão acesas no quadro geopolítico de 2013
China e EUA disputarão Ásia; Europa seguirá em crise; Israel tentará bombardear Irã
Depois de termos sobrevivido ao anunciado fim do mundo, resta-nos agora tratar de prever nosso futuro imediato. Com raciocínios prudentes, porém mais cartesianos; baseando-nos nos princípios da geopolítica, uma disciplina que permite compreender o jogo geral das potências e avaliar os principais riscos e perigos. Para antecipar, como nos tabuleiros de xadrez, os movimentos de cada adversário potencial.

Se contemplarmos, nestes início de ano, um mapa do planeta, imediatamente observaremos vários pontos com luzes vermelhas acesas. Quatro deles apresentam altos níveis de perigo: Europa, América Latina, Oriente Médio e Ásia.

Na União Europeia, 2013 será o pior ano desde que começou a crise. A “austeridade” como crença única e os ataques ao Estado de bem-estar social continuarão, porque assim exige a Alemanha que, pela primeira vez na História, domina a Europa e a dirige com mão de ferro. Berlim não aceitará nenhuma mudança até as eleições do próximo 22 de setembro, em que a chanceler Angela Merkel poderia obter um terceiro mandato.

Na Espanha, as tensões políticas aumentarão na medida em que a Generalitat de Catalunya comece a tornar precisos os termos da consulta aos cidadãos sobre o futuro desta comunidade autônoma. Processo que os nacionalistas bascos seguirão com o maior interesse. A situação da economia, já péssima, dependerá do que ocorrer… na Itália, nas próximas eleições (em 24 de fevereiro). E das reações dos mercados, diante ou de uma eventual vitória dos amigos do conservador Mario Monti (que conta com o apoio de Berlim e do Vaticano), ou do candidato de centro-esquerda, Pier Luigi Bersani, melhor colocado nas pesquisas.

Agência Efe
Estudante chinês exibe bandeira e imagem do líder chinês Mao Tsé-tung
 
Também dependerá das condições (sem dúvida brutais) que Bruxelas exigirá, para o resgate que o presidente do governo espanhol, Mariano Rajoy, acabará pedindo. Sem falar dos protestos, que continuam espalhando-se como rastro de gasolina – e acabarão por se encontrar com algum fósforo aceso… Podem ocorrer explosões em qualquer uma das sociedades do sul europeu (Grécia, Portugal, Itália, Espanha), exasperadas pelos cortes sociais permanentes. A UE não sairá do túnel em 2013, e tudo pode piorar se, além disso, os mercados decidirem voltar-se (como os neoliberais os incitam a fazer) contra a França, do moderadíssimo socialista François Hollande. (1)

Na América Latina, 2013 também estará cheio de desafios. Em primeiro lugar, na Venezuela, que desde 1999 desempenha um papel importante nas mudanças progressistas em toda a região. A recaída imprevista do presidente Hugo Chávez – reeleito em 7 de outubro último – cria incertezas. Embora o dirigente esteja se restabelecendo de sua nova operação contra o câncer, não se podem descartar novas eleições presidenciais em fevereiro. Designado por Chávez, o candidato da revolução bolivariana seria o atual vice-presidente Nicolás Maduro, um líder muito sólido, com qualidades humanas e políticas para se impor.

Também haverá eleições, dia 17 de fevereiro, no Equador. Quase ninguém duvida da reeleição do presidente Rafael Correa, outro dirigente latino-americano fundamental. Honduras (onde, em junho de 2009, um golpe derrubou Manuel Zelaya) viverá importante pleito. O atual presidente, Porfirio Lobo, não pode disputar um segundo mandato consecutivo. E o Tribunal Eleitoral Supremo autorizou a inscrição do partido Libre (Liberdade e Refundação), que, liderado por Zelaya, apresenta como candidata sua esposa, Xiomara Castro. Já no Chile, que terá eleições presidenciais em 17 de novembro, a impopularidade atual do presidente conservador Sebastián Piñera oferece possibilidades de vitória à socialista Michelle Bachelet.

A atenção internacional também se voltará para Cuba. Por duas razões. Continuam em Havana as conversações entre o governo colombiano e as FARC, para tentar acabar com o último conflito armada na América Latina. E esperam-se decisões de Washington. Nas eleições do último 6 de novembro, Barack Obama venceu na Flórida: obteve 75% do voto hispânico e – muito importante – 53% do voto cubano. São resultados que dão ao presidente, em seu último mandato, ampla margem de manobra para avançar rumo ao fim do bloqueio econômico e comercial da ilha.

Onde nada parece avançar é, mais uma vez, o Oriente Médio. Ali encontra-se o atual foco de perturbações no mundo. As revoltas da “primavera árabe” conseguiram derrotar vários ditadores locais: Bem Ali, da Tunísia; Mubarak, do Egito; Kadafi, na Líbia; Saleh, no Iêmen. Mas as eleições livres permitiram que partidos islâmicos com tendências reacionárias (a Irmandade Muçulmana) conquistasse o poder. Agora querem, como se vê no Egito, conservá-lo a todo custo. Para consternação da população laica, que, por ter sido a primeira a se sublevar, nega-se a aceitar esta nova forma de autoritarismo. Um cenário idêntico está armado na Tunísia.

Depois de terem acompanhado com interesse as explosões de liberdade na primavera de 2011 nesta região, as sociedades europeias estão de novo desinteressando-se do que nela ocorre. Talvez por ser muito complicado. Um exemplo: a inextricável guerra civil na Síria. Ali, o que está claro é que as grandes potências ocidentais (Estados Unidos, Reino Unido e França), aliadas à Arábia Saudita, Qatar e Turquia, decidiram apoiar (com dinheiro, armas e instrutores) a insurgência islâmica sunita. Esta continua ganhando terreno, em distintas frentes. Quanto tempo resistirá o governo de Bashar al Assad? Sua sorte parece lançada. A Rússia e a China, seus aliados diplomáticos, não darão sinal verde na ONU para um ataque da OTAN, como na Líbia, em 2011. Mas tanto Moscou quanto Pequim consideram que a situação do regime de Damasco é militarmente irreversível, e começaram a negociar com Washington uma saída que preserve seus interesses.





Diante do “eixo xiita” (Hezbollah libanês, Síria e Irã), os Estados Unidos constituíram, na região, um amplo “eixo sunita” (desde a Turquia e Arábia Saudita até o Marrocos, passando pelo Cairo, Trípoli e Túnis). Objetivo: derrubar Bashar al Assad e despojar Teerã de seu grande aliado regional – antes da próxima primavera. Por que? Porque em 14 de junho haverá, no Irã, haverá eleição presidencial (2). Nelas, Mahmud Ahmadinejad, atual mandatário, não pode concorrer, já que a Constituição não permite exercer mais de dois mandatos. Ou seja, durante o próximo semestre, o Irã estará imerso em ácidas disputas eleitorais, entre os partidários de uma linha dura diante de Washington e os que defendem a via da negociação.

Diante desta situação iraniana de certo desgoverno, Israel estará em ordem de marcha para um eventual ataque contra as instalações nucleares de Teerã (3). No Estado judeu, as eleições gerais de 22 de janeiro produzirão provavelmente a vitória da coalizão ultraconservadora que reforçará o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, partidário de bombardear o Irã o quanto antes.

Este ataque não pode ser executado sem a participação militar dos Estados Unidos. Washington irá aceitá-lo? É pouco provável. Barack Obama, que toma posse em 21 de janeiro, sente-se mais seguro depois da reeleição. Sabe que a imensa maioria da opinião pública estadunidense (4) não deseja mais guerras. O front do Afeganistão segue aberto. O da Síria, também. Outro pode abrir-se no norte do Mali. O novo secretário de Estado, John Kerry, terá a delicada missão de acalmar o aliado israelense.

Enquanto isso, Obama olha para a Ásia, zona prioritária desde que Washington decidiu a reorientação estratégica de sua política externa. Os Estados Unidos tratam de frear, ali, a expansão da China. Cercam-na de bases militares e apoiam-se em seus parceiros tradicionais: Japão, Coreia do Sul e Taiwan. É significativo que a primeira viagem de Barack Obama, depois de sua reeleição, tenha sido para Mianmar, Camboja e Tailândia. São três membros da Asean (Associação de Nações do Sudeste Asiático), uma organização que reúne aliados de Washington na região e cuja maioria dos membros tem problemas de limites marítimos com Pequim.

A China designará Xi Jinping presidente, em março próximo. Seus mares converteram-se nas zonas de maior potencial de conflito armado da área Ásia-Pacífico. As tensões de Pequim com Tóquio, a respeito da soberania das ilhas Senkaku (Diaoyú, para os chineses), podem agravar-se depois da vitória eleitoral, em 15 de dezembro último, do PLD (Partido Liberal-Democrata), cujo líder e novo primeiro-ministro, Shinzo Abe, é um “falcão” nacionalista, conhecido por suas críticas à China. Também a disputa com o Vietnã, sobre a propriedade das ilhas Spratley, está subindo perigosamente de tom. Sobretudo, depois que as autoridades vietnamitas colocaram oficialmente o arquipélago sob sua soberania, em junho passado.

A China está modernizando a todo vapor sua marinha de guerra. Em 25 de setembro último, lançou seu primeiro porta-aviões, o Liaoning, com intenção de intimidar seus vizinhos. Pequim suporta cada vez menos a presença militar dos Estados Unidos na Ásia. Entre os dois gigantes está se instalando uma perigosa “desconfiança estratégica” (5) que, sem dúvidas, marcará a política internacional do século XXI.

(*) Ignacio Ramonet é jornalista. Texto publicado em português no blog Outras Palavras. Tradução; Antônio Martins. (via opera mundi)

sábado, 12 de janeiro de 2013

China envia caças para ‘contra-atacar’ aeronaves japonesas



China envia caças para ‘contra-atacar’ aeronaves japonesas

A China enviou na quinta-feira caças para acompanhar os F-15 do Japão que seguiam um avião de patrulha chinês no mar da China Oriental, alvo de disputa territorial entre os dois países, noticiou nesta sexta-feira a agência Nova China. O envio de caças J-10 chineses foi confirmado nesta sexta-feira em coletiva de imprensa por uma autoridade do Ministério chinês da Defesa, de acordo com a agência oficial da China.

A agência não fornece detalhes se as aeronaves chinesas sobrevoaram a zona em disputa em torno das ilhas Diaoyu, chamadas de Senkaku por Tóquio, e se limitou a informar que os aviões chineses tinham como missão “vigiar” os caças japoneses que pressionavam o avião de patrulha chinês Y-8.

Este incidente ilustra o enfraquecimento da relação entre os dois países, que mantêm posições inflexíveis sobre a disputa.

O arquipélago em litígio está situado 200 km a nordeste da costa de Taiwan, que também o reivindica, e a 400 km a oeste da ilha de Okinawa, no sul do país. As ilhas ocupam uma posição estratégica e na plataforma continental haveria indícios da existência de hidrocarbonetos.

Esta situação ocorreu dois dias depois de o governo japonês ter convocado o embaixador da China, pela primeira vez desde o início do mandato do primeiro-ministro Shinzo Abe, para “protestar vigorosamente” contra a presença recorrente de navios chineses nas águas que banham as ilhas de Senkaku/Diaoyu.

FONTE: Agência France-Presse

França bombardeia jihadistas do Mali

Ataque aéreo ocorreu em resposta ao avanço de grupos rebeldes aliados à rede terrorista Al-Qaeda, que controlam o norte do país



Aviões da França bombardearam ontem o Mali, ex-colônia francesa, em uma tentativa de conter o avanço de rebeldes islâmicos aliados à Al-Qaeda. O presidente malinês interino, Dioncounda Traoré, havia solicitado às Nações Unidas e a Paris ajuda militar na quinta-feira, depois que insurgentes tomaram uma cidade no centro do país.

Nações ocidentais e da região temem que o Mali se converta em um “Afeganistão africano”: um território onde grupos que operam sob a bandeira da Al-Qaeda têm liberdade para impor uma versão ultrarradical da sharia (lei islâmica) e planejar ataques a alvos no exterior.

Em Paris, o presidente François Hollande disse que a ofensiva levará “o tempo que for preciso” e está amparada nas decisões do Conselho de Segurança das Nações Unidas. “O uso da força é necessário”, justificou Hollande. “A própria existência do Mali está em perigo.”

De acordo com a revista alemã Der Spiegel, forças especiais francesas teriam desembarcado no país. O número total de soldados que Paris pretende enviar não foi divulgado. Uma fonte diplomática ocidental no vizinho Níger disse ao jornal New York Times que os insurgentes têm entre 800 e 900 homens. Seis franceses foram sequestrados pelos rebeldes nos últimos meses.

Depois de semanas sem confrontos diretos com o Exército, os rebeldes tomaram, na quinta-feira, a cidade de Konna, avançando sobre o centro do país. Grande parte da população abandonou o local e as forças leais ao governo de Bamako viram-se obrigadas a recuar.

O Mali entrou em colapso em março, quando militares derrubaram o presidente Amadou Toumani Touré. Os generais alegavam que ele havia fracassado na luta contra a rebelião de grupos da etnia tuaregue, no norte do país, mas as potências ocidentais e nações da região recusaram-se a aceitar a ruptura na ordem constitucional.

O caos que se instalou favoreceu a aliança insurgente entre os tuaregues e radicais jihadistas, a qual assumiu, no mês seguinte, o controle do norte do Mali, incluindo a cidade histórica de Timbuctu, declarada patrimônio da humanidade pela Unesco. Hoje, os insurgentes dominam uma extensa faixa no Deserto do Saara, entre a Argélia, Mauritânia e o Níger.

Aval da ONU. Países vizinhos, organizados no bloco regional da Comunidade de Estados da África Ocidental (Ecowas, na sigla em inglês), a França e o governo americano conseguiram aprovar na ONU, em dezembro, uma resolução autorizando o uso da força contra os rebeldes malineses. O texto, entretanto, condiciona a intervenção internacional ao treinamento dos militares do Mali – medida que busca evitar novos golpes de Estado no país.

O objetivo inicial era aguardar até setembro para lançar a operação contra os radicais – espaço de tempo necessário para treinar as forças locais. Com o avanço rebelde de quinta-feira, no entanto, Hollande decidiu agir o mais rápido possível.

A diplomacia francesa pretende colocar em curso uma intervenção na qual as tropas terrestres sejam fornecidas pelo próprio Mali e por países do Ecowas, enquanto Paris fornece apoio aéreo, de inteligência e treinamento.

Outros países europeus, como a Alemanha, além dos EUA, também devem cooperar no esforço multinacional. Ontem à noite, o presidente Traoré decretou estado de emergência em todo país. A medida terá duração de dez dias.

FONTE: Estadão, com informações da AP

FOTO: Força Aérea Francesa (Armée de l’air)

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Mudanças Geopolíticas: Paquistão/Índia, Israel/Síria

Mudanças Geopolíticas: Paquistão/Índia, Israel/Síria

1. PAQUISTÃO/ÍNDIA: Pela primeira vez em 11 anos, o Exército do Paquistão modificou o “Livro Verde” que encapsula sua doutrina militar fundamental. Entre outras alterações, a nova edição do “Livro Verde” estabelece que a mais grave ameaça à segurança nacional do Paquistão é representada pela militância islamista doméstica, e não mais pelo anterior principal inimigo externo do país, a Índia. O documento contém capítulo inteiramente novo, dedicado ao tratamento das chamadas “formas subconvencionais da guerra”, o qual descreve as ameaças representadas por indivíduos e organizações envolvidos em ações de terrorismo e guerrilha contra o Estado paquistanês. Do contingente ativo das forças terrestres, de 550 mil homens, 65% estão no patrulhamento da fronteira oriental (indiana) do país; em contraste, apenas 20% das tropas encontram-se dedicadas à proteção da faixa de fronteira noroeste (afegã), onde se situam os principais santuários dos movimentos jihadistas atuantes na Ásia Central e Meridional. A redistribuição física do poder terrestre paquistanês poderia desdramatizar as tensões militares entre Islamabad e Nova Délhi e facilitar a reconciliação bilateral.

2. ISRAEL/SÍRIA Netanyahu anunciou que Israel construirá uma cerca nas Colinas de Golã, nos mesmos moldes da que está sendo finalizada na fronteira do Sinai. Segundo ele, a nova cerca tornou-se necessária uma vez que, do lado da Síria, “o exército sírio afastou-se e, no seu lugar, forças da Jihad Global avançaram”. Netanyahu voltou a comentar a grande instabilidade do regime sírio e sua preocupação com a questão das armas químicas naquele país. Ressaltou que Israel se está coordenando com os EUA e outros países, para preparar-se “para qualquer cenário e possibilidade que venha a ocorrer”.

FONTE: Ex-Blog do Cesar Maia (via PODER AEREO)

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Chavismo, lulismo e El Cid



Chavismo, lulismo e El Cid

Eles foram populistas populares na mesma época e, de tanto poder, intitularam livros que juntaram um “ismo” ao final de seus nomes. O sufixo implica um líder acima dos partidos, conduzindo multidões anos a fio. Ambos lideraram movimentos populares, mas quão duradouros? Por vias diversas, os legados de Hugo Chávez e Luiz Inácio Lula da Silva estão à prova. 
O personalismo é um divisor entre presidentes. Chávez levou a mitificação ao limite. O congênere brasileiro ficou a meio termo. Lula adotou a continuidade sem continuísmo. Já o venezuelano apostou que nunca viria a faltar.

Afora o simbolismo, o tratamento em Cuba oferece mais do que qualidade médica. Garante sigilo e provoca boatos contraditórios sobre a saúde de Chávez. A opacidade serve ao modelo cubano-chavista. Se houvesse transparência, seria mais difícil sustentar a versão de que o presidente reeleito pode ter sua posse adiada por não se configurar a “ausência permanente” que – manda a Constituição da Venezuela – provocaria nova eleição.

No Twitter, venezuelanos comparam a situação do “chavismo” à dos castelhanos que criaram o mito de El Cid. Pela lenda, o corpo sem vida do cavaleiro símbolo da reconquista ibérica foi assentado em sua montaria para parecer imortal e afugentar os inimigos. A metáfora é tentadora, embora precipitada. No Brasil, a prática de congelar presidentes está, felizmente, superada.

Antes de Lula, só o “getulismo” durou além de Vargas, após se espalhar de sul a norte. Seus fiéis trataram de cumprir a profecia do líder de que, ao deixar a vida, ele entraria na história. Os demais caciques ficaram limitados no espaço – como as tribos de carlistas, malufistas e brizolistas – ou no tempo: o “janismo” não sobreviveu a seu inspirador.

Os “ismos” colam bem em espanhol. A Argentina saiu do “peronismo” para cair no “kirchnerismo”. Em ambos os casos, a popularidade do marido foi herdada pela viúva. No Brasil, a transição pela via feminina se deu em vida. Mas o sucesso inicial não responde à questão de sempre: por quanto tempo?

Chávez não deixa uma, mas dezenas de herdeiros, de concepções diferentes. Eles propagandeiam união, só por conveniência da possível eleição que se avizinha. Mesmo que ganhem, o que será um governo “chavista” sem Chávez? Prevalecerá o militarismo nacionalista dos ex-oficiais do Exército tornados políticos? Ou o socialismo pró-Cuba do vice-presidente e suposto sucessor?

As contradições são mais do que aparentes. Enquanto o presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, passa o rolo compressor na oposição parlamentar e imita os arroubos de Chávez (“Estamos prontos para o debate, mas não para a negociação”), seu rival, o vice Nicolás Maduro, conversa discretamente com os EUA para restabelecer relações diplomáticas plenas.

O “chavismo” ainda precisa passar pelo teste das urnas sem o nome de Chávez entre os candidatos. O “lulismo” passou. Mais do que isso, incorporou milhões de eleitores pobres ao petismo ao longo da última década. Numericamente, o legado de Lula superou o que o PT perdeu por causa do mensalão.

Segundo o Ibope, o PT saiu de 8% da preferência nacional em julho de 1989 para 33% em março de 2010. A trajetória de crescimento teve altos, associados às vitórias eleitorais de Lula (33% em março de 2003 e 2010), e baixos, durante a denúncia e julgamento do mensalão (24% em junho de 2005 e outubro de 2012). No caminho, mudou o perfil socioeconômico dos petistas. A nova classe média tomou espaço da elite sindical-universitária.

A mágica que popularizou o PT foi o aumento de renda e crédito que incluiu dezenas de milhões de neoconsumidores ao mercado nacional. O PSDB finalmente se deu conta de que não há como fazer oposição sem confrontar o petismo na economia. Daí conduzir o debate para os baixos índices de crescimento do PIB em detrimento, por exemplo, da queda das taxas de desemprego.

No Brasil e na Venezuela, a batalha é pela opinião pública. A diferença é que Dilma Rousseff cavalga ao lado do padrinho vivo, enquanto os herdeiros de Chávez manobram à sombra de El Cid.

FONTE: O Estado de S. Paulo